Dom Mauro

Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador, desceu do céu a verdadeira paz! Lemos na antífona da entrada.

“Manifestou-se a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” ( Tt. 3,4). Natal constitui o início desta mais alta manifestação da divina bondade, uma manifestação que se estenderá por toda a vida de Jesus até a sua glorificação e seu dom do Espírito Santo para os que o acolhem. Deus manifesta sua bondade “não por palavras ou com a boca”, como escreve São João, “mas com ações e de verdade” (1Jo 3,18). Sua ação decisiva é o envio do seu Filho ao mundo em nossa carne. Abrindo mão de suas prerrogativas divinas, o Verbo eterno de Deus faz-se um de nós no homem Jesus Cristo. Ele, Deus de Deus, torna-se um Homem entre os homens, compartilhando plenamente a nossa humilde condição.

“… completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 6-7).

Estas frases não cessam de tocar os nossos corações. Chegou o momento que o Anjo tinha preanunciado em Nazaré: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo…” (Lc 1, 31-32). Chegou o momento que Israel aguardava há muitos séculos, durante tantas horas sombrias – o momento de algum modo esperado por toda a humanidade, ainda que sob figuras confusas: que Deus viesse cuidar de nós, que saísse do seu esconderijo, que o mundo fosse salvo e tudo se renovasse. Podemos imaginar com quanto cuidado interior, com quanto amor Maria se preparou para aquela hora. A breve anotação “o enfaixou” ,«envolveu-O em panos» deixa-nos intuir algo da santa alegria e do zelo silencioso de tal preparação. Estavam prontos os panos, para que o Menino pudesse ser bem acolhido. Na hospedaria, porém, não havia lugar. De algum modo a humanidade espera Deus, a sua proximidade. Mas quando chega o momento, não tem lugar para Ele. Está tão ocupada consigo mesma, sente necessidade tão imperiosa de todo o espaço e de todo o tempo para as próprias coisas, que não resta nada para o outro: para o próximo, para o pobre, para Deus. E quanto mais ricos se tornam os homens, tanto mais preenchem tudo de si mesmos. Tanto menos pode entrar o outro.

No entanto, cada ano, parece que se torna mais difícil olhar o mundo que nos rodeia e ver esses sinais da presença divina. No evangelho de Natal, essa distância entre o anúncio e a realidade já existe. Com os pastores, somos chamados a ver o sinal da glória divina na criança pobre refugiada na estrebaria. Hoje, esse sinal se multiplica em tantas manifestações de pobreza e marginalidade do nosso mundo. E a mensagem do Anjo continua repercutindo em nossas vidas: Faz como Deus. Torna-te cada vez mais e  mais humano. 

Natal é família, festa, presentes, Papai Noel, músicas e luzes. Ou melhor, estes são os enfeites de Natal. Natal em sua essência é a mais alta teologia: é o Pai eterno que por amor de nós nos dá seu Filho como companheiro, mestre e redentor para depois, juntamente com este Filho, infundir em nossos corações o Espírito do seu amor, aquele que nos leva para dentro da família trinitária.

João, no seu Evangelho, fixando-se no essencial, aprofundou a breve notícia de São Lucas sobre a situação de Belém: “Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram” (Jo 1, 11). Isto aplica-se antes de mais nada a Belém: o Filho de Davi vem à sua cidade, mas tem de nascer num curral, porque, na hospedaria, não há lugar para Ele. Aplica-se depois a Israel: o enviado chega junto dos seus, mas não o querem. Na realidade aplica-se à humanidade inteira: Aquele por Quem o mundo foi feito, o Verbo criador primordial entra no mundo, mas não é ouvido, não é acolhido.

Em última análise, estas palavras aplicam-se a nós, a cada indivíduo e à sociedade no seu todo. Temos nós tempo para o próximo que necessita da nossa, da minha palavra, do meu afeto? Para o doente que precisa de ajuda? Para o prófugo ou o refugiado que procura asilo? Temos nós tempo e espaço para Deus? Pode Ele entrar na nossa vida? Encontra um espaço em nós, ou temos todos os espaços do nosso pensamento, da nossa ação, da nossa vida ocupados para nós mesmos?

Graças a Deus, a notícia negativa não é a única, nem a última que encontramos no Evangelho. Tal como encontramos em Lucas o amor de Maria, a mãe, e a fidelidade de São José, a vigilância dos pastores e a sua grande alegria, tal como encontramos em Mateus a visita dos Magos, vindos de longe, assim também João nos diz: “Mas, a todos que a receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12). Existem aqueles que acolhem Jesus e deste modo, a começar do curral, do exterior, cresce silenciosamente a nova casa, a nova cidade, o novo mundo.

A mensagem de Natal leva-nos a reconhecer a escuridão de um mundo fechado, e deste modo clarifica e ilumina, sem dúvida, uma realidade que vemos diariamente. Mas isto diz-nos também que Deus não se deixa fechar fora. Ele encontra um espaço, entrando nem que seja para o curral; existem homens que veem a sua luz e a transmitem. Através da palavra do Evangelho, o Anjo fala-nos também a nós, e, na liturgia sagrada, a luz do Redentor entra na nossa vida. Quer sejamos pastores quer sejamos sábios, a luz e a sua mensagem convida-nos para nos pormos a caminho, sairmos da mesquinhez dos nossos desejos e interesses a fim de irmos ao encontro do Senhor e adorá-lo. Adoramo-lo abrindo o mundo à verdade, ao bem, a Cristo, ao serviço de quantos vivem marginalizados e nos quais Ele nos espera.

Peçamos esta graça das mãos do Menino Jesus: a de manifestarmos com nossas vidas que Cristo nasceu – para mim, para os outros, para o mundo todo.

Ilhéus, 24 de dezembro de 2019

Dom Mauro Montagnoli, CSS

Bispo diocesano de Ilhéus

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